Cada vez mais comuns, roubos de instrumentos obrigam músicos a correr atrás do prejuízo – Parte 2

Aquela noite de terror começou após a Burn The Mankind finalizar um ensaio no estúdio Music Box, no bairro São João, na Capital. Eles estavam indo para a casa do baterista, Raissan Chedid, 25 anos. Em um veículo, quatro homens fecharam o Golf que transportava a banda e anunciaram o assalto. Todos deixaram o carro em que estavam e foram colocados contra as grades da casa de Chedid. Temendo sair e levar um tiro, Rafael permaneceu em silêncio, paralisado no banco detrás. Até hoje, os amigos se perguntam se o crime foi premeditado.

– No fim, a gente fica com a dúvida se queriam o carro ou se sabiam que havia instrumento – questiona Rafael.

A banda avalia em R$ 20 mil o prejuízo, com a perda de duas guitarras, caixa de pedais, baixo, módulo de bateria, pedestal, caixa de bateria e 10 pratos, além de um notebook, um HD externo e celulares.

Inconformado com a perda dos equipamentos, Chedid começou a procurar os instrumentos em sites e redes sociais. Certo dia, um amigo o marcou no Facebook, indicando um homem que vendia materiais para baterias. Acertou um encontro.

– Quando me mostrou os pratos (de bateria), deu um negócio em mim. De cara, vi que eram os meus. Tinha até as marcas de baqueta – conta.

No dia seguinte, deu queixa na delegacia. Foi pedida busca e apreensão, mas, quando a polícia invadiu a casa, os equipamentos já não estavam lá. Graças à investigação dos agentes, parte dos instrumentos foi localizada em uma loja no centro de Gravataí. O material foi recuperado, mas ninguém foi preso.

– Estavam vendendo por um terço do valor de mercado – lembra Chedid.

Tão comum quanto perder os equipamentos em assaltos é encontrá-los em sites de vendas pela internet e briques no Facebook. Diferentemente de outros itens, como eletrodomésticos, por exemplo, um violão roubado acaba caindo nas mãos de outro músico, circulando em um nicho específico. É mais difícil para um bandido se desfazer do objeto levado.

O mesmo aconteceu com um músico que teve um contrabaixo furtado quando a Igreja do Evangelho Quadrangular, localizada na Avenida Getúlio Vargas, em Porto Alegre, foi arrombada durante uma madrugada de março de 2017. Semanas depois do crime, o instrumento estava à venda em um site. Ele conseguiu identificar porque era um equipamento de fabricação artesanal, personalizado, com detalhes minuciosamente trabalhados.

A vítima procurou a delegacia da região, a 2ª Delegacia de Polícia Civil, comandada pelo delegado Cesar Carrion. O homem foi orientado a marcar um encontro com o vendedor no shopping Praia de Belas. No dia 19 de abril, enquanto a negociação ocorria, policiais civis espreitavam em tocaia. Quando o músico deu o sinal combinado de que havia reconhecido o instrumento, os policiais se aproximaram e anunciaram a prisão em flagrante do vendedor pelo crime de receptação. Ele também tinha contra si um mandado de prisão por falta de pagamento de pensão alimentícia. No depoimento, disse que havia comprado o contrabaixo no mesmo site por R$ 700. Depois, estaria tentando revendê-lo por R$ 1,5 mil.

– Ele apresentou essa versão, mas não conseguiu comprovar que comprou naquele site – explicou o delegado Carrion.

Cover de Raul Seixas, o músico Cleiton Amorim não teve a mesma sorte dos colegas. Por volta das 19h do dia 19 de abril de 2015, foi atacado enquanto deixava um estúdio em Cachoeirinha, a caminho de uma apresentação. O carro foi levado com o porta-malas lotado: uma mesa de som, um contrabaixo Tagima, dois violões Godin e Takamine, mesa digital, pé Buzzi. O prejuízo chegou a R$ 30 mil, além do veículo.

– Creio que não sabiam o que havia dentro do carro – especula.

Nos dias seguintes, o músico precisou pedir violão emprestado para continuar trabalhando. Chegou a fazer uma rifa para recuperar parte do prejuízo.

– Você imagina um músico que sai para trabalhar por um cachê de R$ 300 e perde, num assalto, R$ 30 mil. A gente demora para montar o set do jeito que quer, do jeito que gosta, com o som que curte. Eu primo por qualidade. Você pode comprar um plugue por R$ 5. Os meus eram todos de R$ 30. Foi uma luta para conseguir comprar tudo de novo – lamenta Amorim.

Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2017/08/cada-vez-mais-comuns-roubos-de-instrumentos-obrigam-musicos-a-correr-atras-do-prejuizo-9860128.html

 

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