‘Comprou por R$ 30 mil um violino que não valia R$ 3 mil’ Parte 2

Sem regulamentação

A luteria no Brasil ainda não é uma profissão reconhecida, e sim uma ocupação de acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações de 2002 (CBO 2002). O Ministério do Trabalho reconhece que “para o exercício dessas ocupações requer-se ensino fundamental concluído (reparador de instrumentos) ou ensino médio concluído (restaurador e luthier).”

Contudo, há anos já existe formação profissional disponível para interessados: um curso superior na Universidade Federal do Paraná e um técnico no Conservatório de Tatuí, interior de São Paulo.

Para Vlamir Ramos, professor deste último, essa dissonância entre a falta de regulamentação e a alta demanda cria uma quantidade difícil de precisar do que é chamado no ramo de “picarethiers” – os luthiers sem formação. “Hoje qualquer pessoa que se diga luthier pode ser procurada pelos músicos como tal. Não há nenhuma instituição de classe, seja particular ou governamental que credencie ou fiscalize os profissionais.”

Por causa desse buraco negro, não há números precisos da quantidade de luthiers atuando no Brasil, mas é possível entender a alta da demanda a partir das necessidades daqueles que os empregam: os músicos. Desde 2004 o número de músicos profissionais cresceu 60%, aquecendo com isso o mercado de compra, venda e restauro de instrumentos musicais.

No caso de músicos de orquestras, também houve um expressivo aumento dos profissionais, puxado pela proeminência de orquestras vinculadas a igrejas de denominações cristãs variadas ou de Orquestras Sociais. Neste último, de acordo com um dossiê feito pela jornalista Heloisa Fischer no Anuário Viva Músicade 2012, existiam naquele ano cerca 92 projetos sociais que envolviam corpo orquestral.

Cópias são comuns no mercado de instrumentos, desde que esteja claro a procedência (Foto: Leonardo Coelho)Cópias são comuns no mercado de instrumentos, desde que esteja claro a procedência (Foto: Leonardo Coelho)

Cópias são comuns no mercado de instrumentos, desde que esteja claro a procedência (Foto: Leonardo Coelho)

Levando em conta que cada orquestra sinfônica ou filarmônica tem tradicionalmente dezenas de membros, e que mais da metade destes são da família dos instrumentos de cordas – isto é, composto majoritariamente por violinos, violas, violoncelos -, é possível ter uma dimensão, ainda que informal, do tamanho do mercado atual.

Vulnerabilidade

Até mesmo profissionais gabaritados já foram vítimas da falsificação de instrumentos – ou chegaram perto disso.

Samuel Pessati, violoncelista da Orquestra Sinfônica do Paraná, recebeu, em 2014, um email que o intrigou. “Uma pessoa queria vender um violoncelo, que ela dizia ser do século 17, herdado dos avós italianos. Pedia também urgência na compra porque precisava pagar um tratamento contra o câncer”, relembra, adicionando ainda que esse vendedor não queria que nenhum luthier tocasse ou visse o instrumento.

 Continuação…

Quando comentou o caso com um amigo, o também violoncelista Isaac Andrade, o enredo lhe chamou a atenção. “Lembrei que meu ex-professor há alguns anos havia recebido um email muito parecido, com a mesma história. Acabou comprando um cello falso por um valor bem alto.”

Os dois cellistas resolveram então continuar a “compra” para investigar mais. Munidos de seus celulares e de uma pequena câmera, filmaram e fotografaram escondido o encontro com o suposto estelionatário, que pediu R$ 25 mil no instrumento. Durante a negociação, mandaram uma foto para seu ex-professor, que confirmou que era a mesma pessoa que lhe havia vendido um instrumento falso alguns anos antes.

Luthiers sugerem não levar em conta o que está escrito em instrumentos como violinos, violas e cellos  (Foto: Leonardo Coelho)Luthiers sugerem não levar em conta o que está escrito em instrumentos como violinos, violas e cellos  (Foto: Leonardo Coelho)

Luthiers sugerem não levar em conta o que está escrito em instrumentos como violinos, violas e cellos (Foto: Leonardo Coelho)

A dupla então resolveu tirar satisfações com o vendedor e, após uma confusão generalizada na Rodoviária de Curitiba, fizeram um BO contra o homem. Contudo a venda não foi sacramentada, o que impossibilitou a ocorrência de um possível crime de estelionato passível de ser investigado.

A trajetória corrida desse vendedor é notória nas regiões Sudeste e Sul do Brasil – ele já foi conectado a dois outros casos de vendas fraudadas em Minas Gerais e Rio de Janeiro, com prejuízos de dezenas de milhares de reais para os músicos.

O luthier Ivan Guimarães, de São Paulo, afirma ter visto vários casos semelhantes em seu ateliê, como o de instrumentos de fabricação chinesa envelhecidos artificialmente. “Assim como o Stradivarius tinha um jeito de construir, esse fraudador também tem sua impressão digital em sua falsificação.”

Continua…

 

Fonte: https://g1.globo.com/musica/noticia/comprou-por-r-30-mil-um-violino-que-nao-valia-r-3-mil-o-lucrativo-mercado-de-instrumentos-falsificados-no-brasil.ghtml

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