‘Comprou por R$ 30 mil um violino que não valia R$ 3 mil’ Parte 3

Continuação…

Comprovação difícil

Instrumentos de cordas como violinos, violas e violoncelos são notoriamente mais complexos de se certificar do que uma obra de arte.

Ao contrário de um quadro, cuja finalidade é estética, instrumentos são objetos do ofício do músico, e podem ter duas origens distintas. Os instrumentos de autor, feitos artesanalmente por nomes conhecidos como Stradivarius, Guarnerius e Amatis, são os mais procurados, antigos e caros, chegando a valer milhões de euros em casas de leilão.

Contudo, há luthiers para todos os bolsos e interesses, tanto os do século 19 quanto contemporâneos.

Já as réplicas, que existem em diversos níveis de qualidade e podem ser feitas ou por fábricas ou por luthiers, servem para pessoas que queiram um instrumento com a mesma aparência e sensação de um original de autor, sem o preço tão salgado. Nesse quesito pode entrar o envelhecimento artificial de um instrumento.

Sobre isso, o luthier Vlamir Ramos, do Conservatório de Tatuí, atenta que “existe o envelhecimento honesto, feito pelo próprio luthier a pedido do músico que queira ter um instrumento com cara de antigo. Porém, a diferença é a transparência na hora de uma possível revenda.”

João Buratti, luthier de 24 de Ourinhos (SP), é um desses construtores que fazem réplicas envelhecidas para músicos que assim o queiram, e revela a anatomia do processo: “Existem diversas técnicas, como tirar o verniz com algodão embebido em álcool, machucar o instrumento para simular o uso extenso etc. No geral, envelhecer artificialmente um instrumento é bem simples.”

Para luthiers com um mínimo de experiência é fácil também perceber o uso desse artifício em um instrumento de baixa qualidade ou mesmo uma recauchutagem em alguma cópia antiga.

A etiqueta de autoria, a primeira coisa em que muitos músicos sem conhecimento prestam atenção, é ainda mais fácil de falsificar. De acordo com o luthier Nilton Dias, que tenta combater esse tipo de fraude em São Paulo, “os criminosos vão em sebos, compram livros antigos já amarelados, recortam o papel e mandam para um calígrafo copiar a etiqueta de um luthier antigo e desconhecido.”

Por isso, um dos conselhos dos luthiers é justamente não levar em conta o que está escrito na etiqueta.

Para luthiers capacitados, é importante não se deixar seduzir por histórias sobre supostas origens dos instrumentos que queiram comprar (Foto: Leonardo Coelho)Para luthiers capacitados, é importante não se deixar seduzir por histórias sobre supostas origens dos instrumentos que queiram comprar (Foto: Leonardo Coelho)

Para luthiers capacitados, é importante não se deixar seduzir por histórias sobre supostas origens dos instrumentos que queiram comprar (Foto: Leonardo Coelho)

Terminado esse processo de envelhecimento artificial, pode-se então inflacionar o preço do instrumento e reinseri-lo no mercado com valores que podem chegar ao tamanho da imaginação e da ganância do vendedor.

“Instrumentos sem origem definida, mesmo sendo bons, não podem passar muito de um determinado valor,” explica Nilton, colocando que a diferença entre um instrumento de fábrica e um de autor é justamente o valor artesanal do trabalho de um luthier qualificado.

Entretanto, a alta no preço da importação de madeiras e ferramentas para o trabalho de luteria dificultam os lucros do sistema tradicional de construção, no qual o instrumento é talhado diretamente do bloco de madeira importada, em um processo que pode durar meses.

Nesse contexto, tem valido a pena importar instrumentos chineses, que vêm pré-montados, necessitando apenas de uma montagem, pequenos ajustes e de uma envernização.

De acordo com o luthier Emanuel Diniz, de Guarulhos (SP), não são apenas os instrumentos chineses os alvos de falsificação. “Muitas lojas e luthiers aqui de São Paulo compram lotes de instrumentos velhos e defeituosos do Ebay europeu, sem etiqueta nenhuma, reformam, etiquetam com o que querem e revendem.”

O preço, porém, não segue os padrões que se esperam para réplicas chinesas ou europeias de baixo custo. Pelo contrário. “Muitas vezes alguns desses luthiers e vendedores fazem um serviço porco em um instrumento que já é ruim, cheio de falhas e cobram mais caro do que um luthier que faz todo o serviço artesanalmente”, afirma Leandro Mombach.

Cuidado com as histórias

Apesar de boa parte dos casos ter relação com instrumentos chineses, não são eles o problema, e sim o que é feito deles. Nilton Dias também ressalva que “só porque um instrumento é antigo, não quer dizer que ele seja bom”.

Há, porém, aqueles mais desanimados com a situação atual do mercado. O luthier Leandro Mombach avisa que, para ele, 80% do que há atualmente no mercado é falso. “Hoje no Brasil eu não acredito em instrumento legítimo, autêntico de luthier, no mercado.”

Praticamente todos os profissionais contatados comentaram que o mais importante na hora da compra é sentir-se conectado ao instrumento, independente de sua suposta origem, além de pesquisar bastante e não se deixar levar pelo emoção, nem por histórias boas demais para serem verdade.

Para Marcos Schmitz, luthier paulistano, é preciso muito cuidado para não cair nesses verdadeiros contos do vigário talhados especificamente para conquistar os corações dos músicos. “Muitas vezes, antes de comprarem um instrumento, os músicos acabam comprando uma história.”

A violoncelista Estela hoje aconselha a todos os músicos que queiram fazer um investimento em um instrumento de melhor qualidade que entrem em contato com um luthier de confiança durante o processo de compra, ato que ela não fez e hoje se arrepende. “Minha inocência me fez achar que um colega não iria querer me enganar.”

A advogada da musicista disse à BBC Brasil que o músico que vendeu o instrumento falso contestou o processo. “Ele disse que também foi vítima de uma fraude anterior, e indicou o vendedor original, o importador, para também virar réu no processo.”

No caso do estelionato, que é definido na Código Penal Brasileiro como “obter, para si ou para outro, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”, o mais importante é ir à delegacia ou ao Ministério Público denunciar o ocorrido.

“Se for possível, peça a um luthier de confiança um laudo técnico que certifique a falsificação”, comenta Elaine. “Com isso, será possível entrar com um processo de reparação civil, podendo até mesmo pedir indenização.”

Embora não exista atualmente uma associação de luthiers ativa no país, alguns construtores estão tentando se unir para criar o que deve se tornar em breve a Associação Brasileira de Luteria.

“O Brasil está muito atrasado nesse quesito”, afirma João Buratti.

Fonte: https://g1.globo.com/musica/noticia/comprou-por-r-30-mil-um-violino-que-nao-valia-r-3-mil-o-lucrativo-mercado-de-instrumentos-falsificados-no-brasil.ghtml

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