Cada vez mais comuns, roubos de instrumentos obrigam músicos a correr atrás do prejuízo – Parte 3

Ao chegar em casa, na Vila Fátima, em Cachoeirinha, com a esposa e o filho de dois anos, no final de uma tarde de fevereiro, o professor de música Ricardo Isquierdo percebeu que a janela da residência estava aberta. Um a um, foi se dando conta da falta de seus instrumentos musicais, utilizados em aulas particulares para crianças e em corais.

– Pô, é meu trabalho, eu vivo disso – indigna-se o músico de 38 anos.

Seis equipamentos foram levados, alguns raros, como a guitarra semiacústica da marca Janine que pertencera ao avô de sua esposa, um baixolão e um banjo country. Entre o lamento e a indignação, Isquierdo decidiu ir à caça das peças em lojas e briques da Região Metropolitana e na internet. Antes, tentou pensar “com a mente” dos bandidos. Imaginou para quem poderiam passar adiante os equipamentos. Como estratégia, decidiu imprimir folders com a inscrição “Compro instrumentos musicais usados”. No dia seguinte ao furto, iniciou, de bicicleta, a peregrinação.

Como fazia em todos os estabelecimentos, chegava, apresentava-se e entregava o folheto. Às vezes, contava a história do furto. Na mesma semana do crime, encontrou o banjo escorado no balcão de uma loja da parada 63 de Gravataí. Reconheceu o instrumento pelo número de série da nota fiscal que guardara.

– É um dos que eu estou procurando – disse, na hora.

O vendedor acabou contando que dois homens haviam aparecido ali, insistindo para vender o equipamento por R$ 800. O comerciante aceitou pagar R$ 200.

– Diziam que era uma dívida que tinha sido paga com o banjo – relata Isquierdo, que obteve o instrumento de volta depois de apresentar cópia do boletim de ocorrência.

O músico seguiu as buscas. Encontrou o bandolim em outra loja, na Vila Anair, em Cachoeirinha, onde criminosos haviam deixado o equipamento em consignação. Como no primeiro caso, o proprietário devolveu o instrumento, pedindo que não avisasse a polícia.

– O artista conhece o seu instrumento. De tanto tocar, a gente acaba gastando, no local onde ficam as escalas, onde digitamos as notas – explica.

Um mês depois, quando já estava sem esperanças de encontrar os outros instrumentos roubados, Isquierdo recebeu a mensagem via WhatsApp: “Tem um cara tentando vender um baixolão, que acho que é teu”, dizia um amigo. Junto, anexou a foto, retirada do site de vendas de instrumentos. Dessa vez, o músico avisou agentes da 2ª Delegacia de Polícia Civil, de Gravataí, que armaram uma cilada. Um adolescente foi apreendido. E o equipamento, restituído.

– É a ferramenta de trabalho e, mais do que isso, uma extensão do nosso corpo. Quando acontece o roubo, é frustrante, é indignante. É isso o que me motivou a ir atrás. São produtos que não caem na mão de qualquer pessoa, pode ser mais fácil de encontrar – relata Isquierdo, que contabiliza prejuízo de R$ 6 mil, apesar da recuperação de parte do roubo.

Não é só uma questão financeira. Para muitos, o instrumento é uma extensão do próprio corpo. Outras vezes, trata-se de uma relação emocional com a peça. Pontuada por uma sequência de fatos ainda nebulosos, o episódio do furto e resgate da gaita Todeschini Super 5, de cor vermelha, que a artista Berenice Azambuja havia ganho dos pais há mais de 40 anos, segue sob investigação da 2ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre.

O instrumento foi surrupiado de dentro do veículo da gaiteira, no bairro Menino Deus, na madrugada de 12 de junho deste ano. Na manhã do dia seguinte, terça-feira, um Fiat Uno, possivelmente dirigido pelo criminoso, estacionou em frente à casa de um pedreiro azulejista, também músico, no Morro Santa Teresa.

Segundo a versão que chegou à polícia, o trabalhador da construção civil teria adesivado o seu carro com anúncios de apresentações artísticas, o que o teria transformado em potencial comprador da gaita de Berenice – aos olhos do autor do furto, claro.

O instrumento foi oferecido ao homem, que, em depoimento, disse ter deduzido se tratar da gaita de Berenice, já que acompanhava pelo rádio notícias do caso desde o amanhecer daquele dia. Em dúvida sobre como proceder, contatou um advogado do seu círculo de amizades, que o teria instruído a comprar a gaita com o intuito de devolvê-la à artista.

O pedreiro, então, relatou em depoimento ter pago R$ 1,5 mil pela Todeschini. Ele teria arrecadado o dinheiro no ato, guardado dentro de casa, uma parte sendo dele e outra, da esposa.

Nesse ínterim, a tradicionalista concedeu entrevistas em rádios da Capital. Obstinada em encontrar o objeto de estima pessoal, além do valor material, ela anunciou seu telefone para receber pistas. Foi a senha para que dezenas de malandros passassem a fazer contato para oferecer informações falsas. Pessoas diziam saber o paradeiro da gaita, mas, antes de revelar qualquer detalhe, exigiam remessas de dinheiro.

Foi quando o advogado contatado pelo azulejista também passou a ligar para a gaiteira e para sua secretária, Ana Paula Costa. Identificando-se apenas como Moraes, ele informava que o instrumento estava no bairro Santa Teresa. Berenice deveria encontrá-lo em local pré-definido, embarcar no seu carro até o morro e, depois, fazer o reembolso de R$ 1,5 mil para ter a gaita de volta. O inquérito registra que foram feitos pedidos para que a polícia não fosse envolvida no caso. Caso contrário, a Todeschini tomaria sumiço.

A essa altura, Berenice ainda não havia registrado ocorrência na Polícia Civil. Depois de insistentes chamadas da equipe do delegado Cesar Carrion, ela chegou à 2ª DP somente às 18h de 13 de junho, uma terça-feira, mais de 24 horas após o furto.

A artista relatou as incontáveis ligações com supostas pistas que havia recebido ao longo do dia, a maioria delas falsas. Passando um filtro, os policiais identificaram como mais coerente a história contada pelo advogado. A partir do número de telefone celular que ele havia deixado, a 2ª DP conseguiu descobrir sua identidade e verificou que o homem, de fato, era advogado. Em meio a um emaranhado de versões mentirosas, uma verdade havia surgido, ainda que fosse apenas a profissão do interlocutor. Resolveram apostar fichas nessa hipótese.

Tendo policiais ao seu lado a lhe orientar, Berenice telefonou de dentro da delegacia para o advogado. Por uma hora, permaneceram em ininterrupta negociação ao pé do ouvido. O homem mantinha a exigência de que Berenice embarcasse no seu carro para ir ao Morro Santa Tereza. Não houve acordo.

A sugestão foi agendar um encontro para o dia seguinte, quarta-feira pela manhã, no estacionamento de um supermercado da Av. José de Alencar. O advogado aceitou. A equipe do delegado Carrion montou um plano: Berenice iria ao local acompanhada por dois policiais civis que se passariam por um motorista e uma sobrinha. O bote estava preparado. Na manhã seguinte, faltando cerca de uma hora para o encontro, a secretária de Berenice avisou que ela havia passado mal e não poderia ir. A Polícia Civil resolveu manter o esquema e enviou quatro agentes ao estacionamento do mercado. Ao chegarem lá, já estavam dentro de um carro o advogado, de 71 anos, o azulejista, 67, e um radialista, 81, personagem novo na narrativa.

– Recuperamos o instrumento no ato, tudo ocorreu de forma tranquila. Devolvemos a gaita para a Berenice à tarde, no Hospital Ernesto Dornelles – recorda o delegado Carrion.

Ele indica que o caso ainda está indefinido, com pontos a serem esclarecidos antes de uma decisão por arquivar o inquérito ou indiciar os homens por receptação. Permanece a dúvida quanto à real intenção dos envolvidos no episódio. Não é possível afirmar, até o momento, se eles queriam apenas devolver a gaita ou tentaram ludibriar Berenice.

Para o delegado, os roubos de instrumentos são ocasionais: acontecem quando ladrões arrombam veículos ou imóveis e deparam com a oportunidade. Ele não acredita que existam quadrilhas especializadas nesse modelo de crime.

– Não diria que é organizado. Não é uma prática comum – conta o delegado.

Os lojistas estão mudando seus hábitos. Ao perceberem que podem se ver envolvidos em crime de receptação, com pena prevista de um a quatro anos de detenção e multa, comerciantes das avenidas Alberto Bins, Azenha, Brasil e João Pessoa, regiões de Porto Alegre conhecidas pela concentração de lojas de objetos usados, passaram a exigir nota fiscal, cópia do documento de identidade ou comprovante de residência de quem tenta passar adiante instrumentos musicais.

– Em função disso, parou a oferta. Semanalmente, vinha gente tentar vender. Inicialmente, a gente comprava. Depois, começamos a pedir nota fiscal, e pararam de oferecer – conta o dono de uma loja no bairro Azenha, que prefere não se identificar.

Foi em um comércio do centro de Porto Alegre que a polícia encontrou um dos 24 instrumentos furtados da Aldeia da Fraternidade, instituição beneficente do bairro Tristeza, que atende a centenas de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. O local foi arrombado em uma madrugada de fevereiro deste ano. Os equipamentos musicais levados eram usados cotidianamente no ensino da arte aos alunos.

O esclarecimento do caso passou a avançar com uma pista anônima que levou a Polícia Civil até uma residência na Tristeza, em um beco, onde estava uma TV furtada junto aos instrumentos. As informações colhidas na casa indicaram que a autoria do arrombamento da escola era de um ex-aluno. Sabendo da quantidade de objetos de valor guardados na instituição, ele planejou e executou a ação. O homem acabou preso, e a 6ª Delegacia de Polícia recuperou, em meados de março, a maioria dos instrumentos intactos, entre violinos, saxofones e teclados.

Seguindo pistas, a polícia foi até uma loja do centro. O comerciante informou que três homens teriam passado no seu estabelecimento pedindo a avaliação de um instrumento que desejavam vender. Ele relatou não ter feito nenhum pagamento e que o trio deixou a mercadoria na loja à noite, com a promessa de retornar no dia seguinte para apresentar um comprovante fiscal. Foi aí que a polícia interveio ao identificar a loja. A delegada Áurea Hoeppel mostrou a foto do ex-aluno da escola que havia cometido o crime e o lojista confirmou se tratar do mesmo homem que havia solicitado avaliação de preço. O instrumento foi recuperado e o comerciante, indiciado por receptação.

 

Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2017/08/cada-vez-mais-comuns-roubos-de-instrumentos-obrigam-musicos-a-correr-atras-do-prejuizo-9860128.html

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *